Método, Estratégias Técnicas e Manejo

Alice Bittencourt – Psicanalista

Resolvi apresentar meu trabalho, fazendo uma pequena síntese, sob a forma de perguntas e respostas, por acreditar que seja uma maneira mais fácil de se assimilar um texto.

O que é Método Empático Introspectivo?
É a maneira como se ouve.

Como o analista do self obtém os dados dos pacientes?
Através da imersão empática na experiência afetiva do paciente e depois reflete sobre a natureza daquela experiência

Qual o pensamento corrente, quando se fala em Método Psicanalítico?
Pensa-se em associação livre e atenção flutuante.

E o que significa o Método Empático Introspectivo para Kohut?
Significa ouvir de dentro, entender o que diz o paciente do ponto de vista dele, esquecendo do nosso (analista), a priori.

Porque o psicanalista do self sente-se com liberdade para fazer perguntas?
Porque com esse método abre-se mão de um conhecimento prévio. O paciente fala algo que o analista, a princípio, não conhece.

E, porque fazer perguntas era algo controvertido antigamente?
Porque diziam que se o paciente soubesse, ele diria. Só que não se pergunta sobre o inconsciente e sim sobre o significado da sua experiência emocional. Para que os pacientes se detenham a olhar o que eles disseram.

Ainda existem as grandes narrativas e as certezas?
Não, não existem mais, como por exemplo: Se tem três pessoas é o Édipo. Se é o Édipo, vive tais e tais angústias. Perdeu-se a convicção de que se sabia.
Para Kohut é: vamos ouvir como ele fala do Édipo dele.

Trabalhar utilizando esse Método é mais, ou menos, exigente?
Trabalhar assim é bem mais exigente. O analista fala mais, e naturalmente fica mais exposto, mas cria-se um ótimo ambiente analítico, onde o paciente sente-se ouvido e respeitado.

E existe alguma vantagem desse Método em relação aos outros?
Na realidade, com esse método, o analista acaba tendo a possibilidade de se aproximar da experiência emocional do outro. E captar melhor a essência da necessidade do paciente.

Qual é o foco da psicanálise clássica?
É a descoberta de um significado oculto, que deve ser descoberto. E assim, dá-se um significado teórico da psicanálise, usando um raciocínio analógico.

E qual é a novidade da Psicologia Psicanalítica do Self em relação a posição do analista?
O analista é descentrado de sua posição, ele sai do seu lugar, e vai ouvir o paciente do lugar dele. Aí você fala de outra teoria – a teoria dos pacientes.

Qual o tipo de paciente que, inicialmente, Kohut pensava em tratar?
Kohut teve cuidado de sugerir inicialmente, porque ficou ligado a psicopatologia, que o Psicanalista do Self tratava apenas dos transtornos narcísicos da personalidade. Ele queria experimentar e colocar na prática sua teoria, sem se opor tanto a Psicanálise vigente. Mas, em “Como cura a Psicanálise” (1984), ele vê sua teoria como recurso de aplicação ampla, e expande suas idéias em relação ao processo curativo.

E qual é o limite desta expansão?
O limite não é mais com relação a psicopatologia, é com a relacionalidade.
Vai depender da capacidade do analista de estabelecer uma relação transferencial com o paciente, de interagir com ele, sem se preocupar com a classificação diagnóstica

A Psicanálise do Self pode atender a todos os tipos de pessoas?
Pode, porque suas aplicações clínicas são muito amplas: desde pessoas em várias etapas de evolução de sua vida, como também, com os “selves” organizados das formas mais diversas.

Quais são as Estratégias Técnicas?
Aplicamos a Técnica, que é a maneira como se trabalha, de acordo com a demanda do paciente.
Respeitando a teoria que o paciente tem dele mesmo.

Como é o trabalho dos kohutianos com relação a transferência?
Trabalhamos na transferência e não a transferência.
Estamos dentro do campo, não falamos do campo. Somos ao mesmo tempo, observadores, observados e interferentes.
Falamos da demanda do paciente, do seu desejo, para entendê-lo e não atendê-lo.
Só falamos na transferência quando ocorrem impasses que estão impedindo o bom andamento da análise como: faltas, atrasos, etc. Lidamos com isso trazendo o assunto para dentro da análise, por exemplo: “Estou achando você tão desinteressado da análise…”

E com relação à Técnica Interpretativa?
Ela é diferente. O trabalho do analista é, agora, considerar a si mesmo como alvo das necessidades selfobjetais do paciente.

O que muda no trabalho do analista?
A interpretação passa a ser um trabalho construído pelos dois, é uma construção compartilhada. Os pacientes é que tem o prazer da descoberta.

Existe alguma particularidade com relação à forma de interpretar dos analistas do self?

A interpretação é feita em 2 fases:

1 – Compreensão
2 – Explicação

Na prática essas 2 fases são interligadas freqüentemente vêm juntas numa única intervenção. Alguns pacientes precisam de um período longo de compreensão apenas, antes de passar para a fase de explicação.

O que é característico de cada fase?

1. Na fase da compreensão – O analista obtém os dados através da imersão empática, na experiência afetiva do paciente, e comunica os dados a ele.
2. Na fase da explicação – O analista explica, como determinada experiência do início da vida está sendo reatualizada na relação analítica, naquele momento. Dá-se ao paciente a capacidade de compreender a si mesmo, dentro do contexto de sua própria história. E como ao elemento cognitivo é acrescentado a explicação, vai-se criando estrutura interna.

O que é Manejo?
São as formas como usamos a técnica.

Como Kohut desenvolveu sua compreensão para construir sua teoria?
Através das transferências que emergiram durante seu trabalho analítico. E percebeu que certas necessidades específicas estão referidas às formas iniciais do narcisismo do bebê.
O equilíbrio narcísico do bebê é perturbado pelas inevitáveis falhas do cuidado materno. Mas a criança substitui a perfeição perdida estabelecendo dois sistemas:
A imago parental idealizada e o self grandioso.

O que Kohut pensava sobre essas necessidades narcísicas infantis?
Que essas necessidades, que ficaram impedidas de desenvolver por causa das frustrações traumáticas da infância, são reativadas por causa do tratamento. E saudadas como algo positivo na análise, porque sendo trabalhadas, vão permitir a retomada do desenvolvimento.

Como age o Psicanalista do Self em relação às necessidades narcísicas ou selfobjetais do paciente?
De acordo com as necessidades de cada paciente, o Analista do Self é chamado a exercer uma, ou mais de uma, função ao mesmo tempo. Dependendo do tipo de transferência selfobjetal que se estabelecer entre a dupla.

Quais são as transferências selfobjetais?

São três:

1. Transferência Idealizadora;

2. Transferência Especular;

3. Transferência Gemelar.

Que necessidades específicas encontramos nos 3 tipos de transferência, e o que acontece, à medida que a análise vai transcorrendo?

1. Na transferência idealizadora – encontramos as necessidades específicas da imago parental idealizada. O paciente atribui ao analista (selfobjeto) toda a perfeição e poder e busca manter-se fusionado com ele para sentir-se completo e vivo. Então é um outro, que é narcísicamente idealizado.
Durante a análise, o paciente vai internalizando as funções exercidas pelo analista. Essas funções, sendo integradas na personalidade, fornecem o combustível para seus ideais.

2. Na transferência especular – encontramos as necessidades específicas do self grandioso, o paciente atribui ao próprio Self uma imagem grandiosa, exibicionista, onipotente e de perfeição. E atribui ao analista (selfobjeto) a função psicológica de espelho que valida, aceita e reflete sua grandiosidade.
Durante a análise, o paciente vai tendo sua grandiosidade abrandada e toda estrutura torna-se integrada na personalidade. Fornecendo o combustível para suas ambições e auto-estima.

3. Na transferência gemelar – (acrescentada depois) Kohut diz que confere humanidade à relação paciente – analista. O paciente se reconhece no outro (analista), na experiência e na história do outro. Ele tem necessidade de sentir que há semelhança e companheirismo com o outro.

Penso que é isso a base para a manutenção de uma análise.

Texto apresentado na Jornada2006 (setembro), da ABEPPS (Item 3 do 2º Módulo) e no XXI Congresso Brasileiro de Psicanálise, em Porto Alegre, em maio de 2007.