O que é Self Objeto?

Psicóloga e Psicanalista
Texto apresentado na Jornada2006 (setembro), da ABEPPS (Item 1.1 do 2º Módulo)

O conceito selfobjeto nasceu da repetida observação clínica de Kohut de um grupo de pacientes com patologia narcísica. Selfobjeto é um conceito intrapsíquico e descreve como o self vivencia a realização de seus objetivos de desenvolvimento, com o auxílio de determinadas funções específicas exercidas por um outro. Esse outro então é vivenciado como parte do self, ou como alguém a quem o self está apegado.
Kohut (1968; 1971) descreveu de maneira muito comovente um momento característico na análise de uma paciente. Ele oferecia repetidamente (e sem sucesso) a interpretação habitual a propósito de sua regressão a partir de sentimentos transferenciais edipianos. A paciente queixava-se de que Kohut cada vez mais estava arruinando a análise dela.
Ela queria que ele ouvisse em silêncio tudo o que ela tinha a dizer e, depois de algum tempo, mais ou menos na metade da sessão, lhe oferecesse um resumo do que ela havia dito. Nem mais nem menos. Quando Kohut incluía no resumo alguma coisa de suas próprias idéias, ela ficava furiosa e achava que ele uma vez mais estava arruinando sua análise. Num determinado momento, quando a paciente outra vez expressava sua queixa num tom de voz exaltado e de um jeito intenso, veemente e exigente, Kohut pela primeira vez considerou que talvez os desejos e as necessidades da paciente não fossem expressão de uma evasão regressiva de suas angústias edipianas, mas sim expressões de necessidades genuínas de sua infância e específicas de determinada fase do desenvolvimento, e não atendidas. A paciente queria que seus próprios sentimentos e pensamentos fossem aceitos, confirmados e validados – isto é, ela tinha a necessidade de que seu analista funcionasse como um espelho para esses sentimentos, e persistia lutando por isso. Seu comportamento na análise não era uma resistência contra o surgimento de seus desejos edipianos, mas sim a reativação de necessidades antigas cuja satisfação na infância teria servido como “nutrientes psicológicos” para seu desenvolvimento normal. Kohut chamou isso de “transferência especular” – uma das “transferências selfobjeto” na qual o analista é vivenciado como necessário para suprir uma função de construção de estrutura, função que o paciente ainda não pode realizar por si mesmo.
Kohut concluiu que pacientes com distúrbio narcísico reagiam com grande sensibilidade e vulnerabilidade na experiência de intimidade e de ser compreendido. E ele perguntou a que se deveria atribuir essa sensibilidade e vulnerabilidade?
Kohut se volta para o desenvolvimento do self e enfatiza que a chave para a compreensão dos distúrbios narcísicos é inseparável da idéia de que os objetos que cumprem funções psicológicas para a criança são experienciados em termos das funções que cumprem e não de suas qualidades pessoais. São experienciados pela criança como partes do self. Quando cumprem suas funções são tomados como certos por antecipação, assim como acontece com um membro ou qualquer outra parte do corpo da criança. Só quando o objeto falha em suas funções é que chama atenção
para si. Kohut denominou selfobjetos esses objetos vivenciados como parte do self. Eles existem como funções psicológicas, e não são experienciados como verdadeiros objetos distintos.
Estruturas psíquicas são internalizações de funções de tranquilização, de regulação de tensão, bem como de adaptação que anteriormente vinham sendo desempenhadas pelo selobjeto.

Selfobjeto

– É experienciado como parte do Self.
– Existe como função psicológica e não é experienciado como verdadeiro objeto distinto.
– É tomado como certo por antecipação como acontece com um membro ou uma parte do corpo.

Objeto

– Psicologicamente separado e distinto do self.
– Adquiriu estruturas autônomas.
– Aceita motivações e respostas independentes dos outros.
– Adquiriu a noção de mutualidade.

Experiências Selfobjetais

-Necessárias para o estabelecimento e manutenção de um self coeso, vigoroso e equilibrado.
– Necessárias ao longo de toda a vida, embora as necessidades específicas mudem de acordo com a fase através de todo o ciclo de vida.

Desenvolvem-se como resultado da gradativa retirada do narcisismo investido nos antigos objetos idealizados e continuam a cumprir suas funções psicológicas mesmo na ausência dos selfobjetos.
No início Kohut postulou três espécies de relações selfobjetais. Posteriormente, outras experiências selfobjetais necessárias para a sustentação da coesão ou da integridade de nosso self; para regular a auto-estima; para sentirmo-nos cheios de vida, cheios de energia, e para sermos capazes de empenhar-nos profundamente em nossas atividades vieram a ser reconhecidas. Não vou falar de cada uma delas especificamente, isso extrapolaria o tempo reservado. Mas elas são:

  • Experiências selfobjetais especulares
  • Experiências selfobjetais idealizadoras
  • Experiências selfobjetais de alter-ego/ou gemelarExperiências selfobjetais de fusão
  • Experiências selfobjetais adversariais
  • Experiências selfobjetais de eficiências
  • Experiências selfobjetais vitalizadoras

Agora vou falar um pouco sobre o meio ambiente e seus efeitos sobre o desenvolvimento do self. Um ambiente favorável de desenvolvimento, isto é um ambiente empático, proporcionará à criança as experiências selfobjetais essenciais e necessárias para o estabelecimento de um self saudável, enquanto um ambiente de desenvolvimento defeituoso resulta em selfs prejudicados em estrutura e funcionamento. Tais ambientes de desenvolvimento patogênicos são em geral caracterizados pela ausência ou por experiências selfobjetais nocivas. Estas podem ocorrer devido à indisponibilidade de outras experiências adequadas através de, por exemplo, carência, separação, perda, falta de responsividade, responsividade excessiva, rejeição, intrusão, super-estimulação, sub-estimulação, estimulação sexual imprópria e agressão destrutiva.
Além disso, para Kohut o ponto final do desenvolvimento, isto é, o amadurecimento ou a normalidade, não é a autonomia e a separação, mas um engajamento mais profundo. Nunca perdemos nossa necessidade de mantermos nossos selfobjetos, seus equivalentes simbólicos ou nossas complexas relações com eles. E, de fato, é através destes relacionamentos que o self é formado e continua a existir.

Seja na primeira infância, durante o período edípico, na puberdade, na adolescência e idade adulta, durante o casamento, no exercício da parentalidade, nas mudanças para um novo ambiente cultural que priva uma pessoa de seus “selfobjetos culturais”, na meia idade e na velhice – ou seja – ao longo de toda uma vida em transformação a necessidade de respostas selfobjetais está sempre presente.
No contexto de uma análise o que se observa é que o self quando libertado de suas necessidades do início da vida que o prendem a selfobjetos arcaicos, fica mais livre para escolher selfobjetos num nível mais elevado de maturidade. Como resultado da análise pode-se observar que o self torna-se estruturalmente mais firme e aumenta sua habilidade para usar selfobjetos para sua própria sustentação, inclusive uma liberdade maior na escolha de selfobjetos.

Referências:
Kohut, H. (1988, orig. 1972). Análise do Self. Rio de Janeiro, Imago.
Lichtenberg, J.D. (1991).What is a Selfobject? Psychoanalytic Dial., 1:455-479.
Siegel, Allen M. Heinz Kohut e a Psicologia do Self, Casa do Psicólogo, São Paulo.

Autor: Marília M. de la Cal