O Self

Psicóloga e Psicanalista
Texto apresentado na Jornada2006 (setembro), da ABEPPS (Item 1.2 do 2º Módulo)

Falar do self é também uma maneira de falar de como Kohut vê o ser humano. É falar de uma postura em relação ao homem. E eu queria começar mostrando a diferença de visões a cerca do ser humano em Freud e em Kohut.
Se para Freud a grande luta do homem se dá entre os seus instintos (ou pulsões como querem alguns) e a civilização que impede a livre expressão destes (o homem culpado, segundo Kohut), para Kohut, a grande luta que o homem trava é no sentido de dar expressão ao projeto assentado pelo seu self nuclear (o homem trágico).

Kohut, um grande estudioso da teoria freudiana e professor de Metapsicologia no Instituto de Chicago, começou a perceber, em sua prática clínica, que a análise dos conflitos psíquicos para certos pacientes não resultava na esperada melhora do sofrimento ou do cessar de comportamentos indesejáveis. O homem não buscaria apenas o prazer e não viveria somente no mundo dos conflitos. Existe também um núcleo (centro) primário de iniciativa e espontaneidade que busca expressão. É esse núcleo (centro) de espontaneidade que Kohut veio a denominar “o self”. (A princípio ele chamou esse núcleo de narcisismo e depois “self).
O que é, então, o self?
Para entendermos o que é o self precisamos nos remeter ao pensamento de Kohut em relação ao conhecimento científico:
Para ele a essência da realidade externa e interna é incognoscível e “nada se pode fazer além de confiar nos resultados deste ou daquele instrumento de observação (com relação à realidade externa, nos nossos diversos órgãos sensoriais, suas extensões mecânicas e agora eletrônicas; com relação à realidade interna do homem, na introspecção e na empatia).
Em “A Restauração do Self” (1977) Kohut diz:

“O self é como a realidade, não conhecido em sua essência. Nós só podemos descrever as várias formas coesas nas quais ele se apresenta, podemos demonstrar os vários constituintes que compõe o self… e explicar suas gêneses e funções. Podemos fazer tudo isso, mas ainda assim nós não conheceremos a essência do self enquanto diferenciado de suas manifestações”.
Se nos indagarmos empàticamente o que vem a ser o self, temos algumas suposições:
“… sentimentos de sermos um centro independente de iniciativa e percepção
sentimentos de estarmos integrados com nossas ambições e ideais mais centrais
e com a experiência de que nosso corpo e mente formam uma unidade no espaço e um continuum no tempo” (A Restauração do Self, 1977).
A nível conceitual, o self é uma abstração psicanalítica de um nível relativamente baixo, isto é, próximo da experiência (diferente por exemplo de ego, id e superego, abstrações de alto nível distantes da experiência).
Como seria construído esse sentimento, essa experiência de self?
Para que isso aconteça precisamos necessariamente de alguém ou algo que nos vitalize, nos integre, nos humanize, nos faça sentir como pertencendo à humanidade.
No início do nosso desenvolvimento quem irá nos propiciar essa experiência de estarmos vivos e integrados são os nossos cuidadores.
Mas Kohut deu a eles um nome especial, porque além de terem essa função de vitalizar, os cuidadores, nessa função, não são percebidos como “outros” distintos de nós mesmos. Eles são partes do nosso self, eles são os selfobjetos.
– Da mesma maneira que não sobrevivemos sem o oxigênio, Kohut nos diz, também não sobrevivemos sem a responsividade dos selfobjetos.
Como vemos então, o self está imerso na relação com o outro.
– O homem em Kohut se constitui na relação com o outro e dependerá, durante a vida inteira, das respostas empáticas dos selfobjetos que se transformarão no decorrer da vida.
– A experiência selfobjetal depois não precisará, necessàriamente, ser vivida com uma outra pessoa; ela poderá ser vivida com um equivalente simbólico, com qualquer atividade que vitalize o self: o brincar de uma criança, por exemplo, a experiência de ouvir uma música, ler um livro, ver um filme, etc. Sentimentos como o ódio, por exemplo, também podem ser experiências selfobjetais que vitalizam o self. (O bandido que mata friamente – o ódio daria vida, sensação de força e poder a um self com uma auto-estima baixa. O terrorista que se sente forte e importante ao se fundir com Alá, todo poderoso).
Já para Kohut, portanto, é impossível pensar o homem e a experiência de self, sozinho, isolado (as relações humanas têm um papel vital na formação emocional e psicológica do ser humano). Kohut começa já a mostrar o que os intersubjetivistas defenderão e desenvolverão mais tarde: a idéia de que a “mente isolada” é um mito.Voltando então à origem do self, como se forma o self nuclear?
O self da criança tem o seu começo na mente dos pais (especialmente da mãe); ele se inicia virtualmente com a formação de determinadas esperanças, sonhos e expectativas em relação à criança. Ele surge como resultado do interjogo entre o equipamento inato do recém-nascido e as respostas seletivas dos selfobjetos através das quais certas potencialidades são encorajadas em seu desenvolvimento enquanto que outras são desestimuladas e até mesmo ativamente desencorajadas (inibidas).
Desde o início o bebê está imerso em um ambiente (selfobjetos) que o vivencia como já possuidor de um self, como possuindo a capacidade de ter uma experiência de self.
– A mãe já vê no bebê aquilo que a pesquisa psicanalítica tem constatado: um “self rudimentar”.
– A mãe empática volta-se para o bebê como um todo.
– Ela reconhece não só as suas necessidades corporais individuais, isoladas (por exemplo, balbuciar, espernear, sugar, etc.), mas também a sua totalidade e sua experiência de si mesmo – a mãe cria um “clima emocional” de aceitação das necessidades infantis.
A criança, por sua vez, que tem seu estado de segurança completa (perfeição narcísica) perturbado pelos limites inevitáveis do cuidado materno, vai tentar refazer a perfeição prévia:
a) construindo uma imagem grandiosa e exibicionista de si mesma (atribuindo a si mesma tudo que é bom e perfeito) – o self grandioso.
b) atribuindo a perfeição prévia a um outro venerado e onipotente – a imagem parental idealizada.
Temos aqui o estágio embrionário do self bi-polar com o polo das ambições (relacionado ao self grandioso) e o pólo dos ideais (relacionado à imago parental idealizada).
No início, os pais empáticos refletirão o self grandioso infantil (propiciarão a experiência selfobjetal especular) e permitirão a idealização de si mesmos e a fusão da criança com estes (propiciarão a experiência selfobjetal idealizadora).
– As funções exercidas pelos selfobjetos são internalizadas (através do processo de internalizações transmutadoras); assim as relações selfobjetais são transformadas em estruturas do self.
– O self autônomo não é uma réplica do selfobjeto. A analogia da ingestão da proteína “estrangeira” com a finalidade de construir a nossa própria proteína é muito útil aqui.
– O processo de internalização das relações self-selfobjeto formadoras de estruturas é interminável e, de acordo com Kohut estas (relações) jamais se tornam supérfluas, são necessárias durante toda a vida.
Um self firme, resultado de uma interação “ótima” entre a criança e seus selfobjetos, terá então três constituintes:
– o pólo das ambições, do qual emanam a luta pelo sucesso
– o pólo dos ideais, que abrange nossos valores e metas
– e uma área intermediária de talentos (inatos) e habilidades (adquiridas) que são ativados pelo arco de tensão que se estabelece entre esses dois pólos (das ambições e dos ideais).
– Kohut nos diz que somos empurrados pelas nossas ambições e conduzidos pelos nossos ideais.
Uma vez o self tendo se cristalizado (constituído) no interjogo dos fatores herdados e adquiridos, ele tem por objetivo a realização de seu próprio programa de ação – o programa nuclear do self.
Dependendo da qualidade das interações entre o self e os selfobjetos na infância, o self emergirá ou como uma estrutura firme e saudável ou como um self mais ou menos comprometido.
Frustrações ótimas e gratificações ótimas geram a matriz facilitadora do crescimento do self. A patologia não virá de falhas empáticas ocasionais e sim das falhas crônicas dos selfobjetos.
A essência da matriz saudável do self é um self coeso e maduro dos pais que está em sintonia com as necessidades cambiantes da criança.