Impacto do Método Empático Introspectivo na Clínica

Cesar Rubens Polli – Psiquiatra e Psicanalista

Vou começar o meu trabalho com uma frase de Franz Alexander, psicanalista do ego, em 1957 em Paris, numa versão resumida de Kohut na reunião da Associação Psicanalítica Internacional, onde ele relata que aquela apresentação viria a ser um impacto dramático sobre o futuro da psicanálise. Do que ele estava falando nada mais era do que o método empático – introspectivo apresentado em versão resumida.
Esse tema acompanhou anos a fio Kohut e foi a mola mestra de Kohut. Mas foi mesmo em 1959, por conta do 25º aniversário do Instituto para Psicanálise de Chicago, que Kohut apresentou por inteiro o seu pensamento sobre o método empático-introspectivo. Nessa mesma época seu trabalho era publicado no Journal of the American Psychoanalitic de Chicago.

Nessa ocasião, o trabalho causou muita comoção porque Kohut estava trazendo o que havia de mais atual para o pensamento da psicologia profunda, ele achava que um observador, que é o terapeuta, atento e presente, deveria estar diante do observado, que é o paciente.
Kohut, na sua genialidade, descreve que empatia é um método de observação e é a pedra angular de seu método clínico de investigação e que sempre deverá estar como algo próximo da experiência emocional do outro.
Kohut era tão brilhante que retirou o terapeuta do lugar frio, distante, próximo da teoria e distante do paciente. Kohut fala e insiste que empatia é aquilo que orienta a ação, independente da ação que tem um valor neutro por não estar ligado a nenhum sentimento, seja de afeição ou compaixão. Quando ele fala isso, ele quer dizer que empatia não é porque você ama ou porque tem pena ou vê o paciente como coitadinho. Para Kohut o fato de estar dentro da experiência do paciente reafirma que, o método empático introspectivo, coloca o terapeuta dentro do processo e o tira do seu lugar e o coloca no lugar do outro (na experiência do outro sem deixar de estar consigo, sem perder o seu lugar).
Como já falei anteriormente, isso faz com que o analista obtenha dados acerca da vida interior do paciente por meio dessa imersão empática na experiência afetiva dele.

Embora o método empático-introspectivo seja o instrumento de coleta de dados do analista, a experiência do paciente de ser compreendida empaticamente, é essencial para a sua vida psicológica. Isso também implica em benefícios terapêuticos secundários. O paciente tem uma sensação de não estar só, de não estar vivenciando um mundo permanentemente como se fosse uma tela em branco onde pudesse projetar seus conflitos, sua vivência.
Reforçando o que foi falado, devemos esclarecer aqui que um terapeuta apenas afetuoso, correto e preciso, não garante que está atento empaticamente ao seu paciente.
Serão suas ações e suas respostas que consolidarão a existência da formação de uma relação self – self objeto, self objeto – self (self é o âmago da nossa personalidade e self objeto são as pessoas que relacionamos no ambiente da nossa infância e hoje e agora). Esse conjunto é o que sustenta a relação intra-psíquica.
Vemos aqui, mais uma vez, que a presença do terapeuta, na utilização do método empático introspectivo, dentro do que estamos entendendo, consolida, reafirma, participa, vivencia e fortalece os selves da mesma forma como a mãe na relação com o bebe. Kohut considera que a origem da empatia seja uma codificação dos sentimentos e do comportamento da mãe na experiência do self no desenvolvimento da criança.

Kohut, na sua grande preocupação com a relação self- self objeto, e vice versa, fala que um ambiente destituído de empatia, é igual você estar eliminando a existência do individuo e estar introduzindo nesse individuo a angustia pela sua não existência na relação. Caso isso ocorra criará no individuo uma angustia mais forte que é a de desintegração. Já um ambiente empático é a validação de nossa existência psicológica, é a ampliação da confiabilidade entre o observador e o observado.
Kohut redefiniu o método psicanalítico de observação, captação, experiência e relação, tornando-o, com isso, um marco, proporcionando uma ampla dimensão onde podemos rever nossas relações a cada encontro com nossos pacientes. Acredito que Kohut não imaginava o amplo universo psicanalítico relacional que ele nos deixou como herança.
Podemos então perceber que com toda essa movimentação, o método nos abre horizontes de acesso, de troca e nos coloca numa posição cada vez mais exigente com o rigor ético, e com a liberação desse ser em constante movimento e mutação. Coloca-nos, também, em uma fonte permanente de pesquisa ligados em nossas teorias, só que sempre próximo da experiência do individuo. Cada individuo tem sua história, onde na experiência com ele é que vamos utilizar nossas teorias e nossos conhecimentos.

Texto apresentado na Jornada2006 (setembro), da ABEPPS (Item 3 do 1º Módulo)