Um passeio pela vida e obra de Heinz Kohut

Letícia T. Neves – Psicóloga e Psicanalista / Renato O. Barauna – Médico e Psicanalista

1 – Introdução
A Psicologia Psicanalítica do Self surgiu da evolução das idéias de Heinz Kohut ao longo de toda a sua vida. Obra e autor formam, até a sua morte, uma mesma história.
Este texto visa contar um pouco da história desse psicanalista.
Kohut foi acentuadamente preocupado com a experiência clínica e dotado da capacidade de transformar sua observação e conhecimento em abstrações teóricas. Suas inquietações e insights foram aos poucos, através de seus textos, fazendo surgir um novo método psicanalítico e um corpo teórico de grande abrangência e aplicabilidade na clínica psicanalítica.

2 – Um jovem médico europeu
Heinz Kohut nasceu em Viena em 03 de maio de 1913.
Seu mundo familiar, pródigo financeiramente, foi pleno em cultura humanística, arte e música, contudo foi relacionalmente carente. Sua mãe, Else Kohut, tornou-se uma figura de grande domínio sobre seu desenvolvimento. Mulher alegre, ativa e competente profissionalmente foi, gradualmente, apresentando graves comprometimentos pessoais, o que não lhe permitiu estabelecer uma relação materna estável com seu filho. Acrescentava-se a isso, as constantes ausências de seu pai, Felix Kohut, devido à guerra e a sua ocupação profissional. O relacionamento dos dois foi afetado pelo distanciamento e por sua postura fria e taciturna. Felix morreu precocemente, aos 47 anos, em 1937. Destacaram-se, em sua juventude, Morawetz, seu tutor, e Levarie seu mais importante amigo.
Em 1938, graduou-se em Medicina pela Universidade de Viena. Foi analisando de August Aichhorn, analista inovador em posturas técnicas, como o uso da idealização do analista em tratamentos de adolescente com distúrbios de comportamento.

Tal concepção da função psicológica do fenômeno da idealização, supomos, possa tê-lo influenciado em sua futura proposição da importância da idealização no desenvolvimento de estruturas de self, que conteriam a capacidade de nos acalmarmos, com a conseqüente possibilidade de nos visualizarmos no futuro. Aichhorn, que permaneceu em Viena, foi até sua morte, um privilegiado interlocutor, estimado amigo, com quem ele manteve assídua correspondência. Esse relacionamento foi bastante significativo para a manutenção de sua criativa e ambiciosa trajetória na América, distante da sua amada Viena. Sabedor da grande admiração de Kohut por Freud, Aichhorn informou-o do dia da partida de Freud para Londres para escapar do nazismo.
A saída de Freud de Viena foi importante evento na vida de Kohut, tornou-se o que ele chamava seu “mito pessoal”. Na estação de trem, teve a impressão de que Freud lhe cumprimentou com um movimento de chapéu, sentiu que seu grande mestre simbolicamente lhe conferia o prosseguimento do curso da Psicanálise. Devido à guerra, ele encontrava-se tomado por sentimentos dolorosos provocados pelo desmoronamento de seu mundo, o aceno do fundador da Psicanálise transformou-se, naquele momento, algo ao qual ele podia se segurar, “na gênese para o meu futuro profissional e científico”.

Sua ascendência judia, numa Europa em luta na segunda grande guerra, lhe impôs o exílio. Com o auxílio de amigos, deixou Viena em 1939 e no ano seguinte emigrou para os Estados Unidos, seguido, posteriormente por sua mãe.
Retrospectivamente, podemos supor que essas experiências relacionais tenham servido de base para a construção de seus futuros conceitos teóricos.

3 – Mister Psicanálise
Kohut, no seu novo mundo, escolheu viver em Chicago. Como médico, dedicou-se a Neurologia (1941) e, posteriormente a Psiquiatria (1947).
Foi recusado na sua primeira tentativa de ingresso na formação psicanalítica no Instituto de Psicanálise de Chicago. Para uma nova empreitada, tomou como analista didata Ruth Eissler, esposa de Kurt Eissler eminente e promissor psicanalista que havia sido analista de August Aichhorn, seu ex-analista em Viena. Foi aceito, graduou-se como psicanalista em 1950 e por 18 anos dedicou-se a docência de metapsicologia freudiana, o que lhe valeu o apelido de “Mister Psicanálise”.

Este título demonstra o quanto ele foi um apaixonado estudioso, divulgador e grande conhecedor da teoria freudiana.

Justifica, também, o quanto a metapsicologia impregnou seus textos teóricos e clínicos. Kohut, inicialmente, considerava-se um aprofundador dos conceitos freudianos, contudo suas idéias inovadoras forçaram um distanciamento da Psicanálise convencional que o colocou em incômoda situação entre seus pares. Foi presidente da Sociedade de Psicalítica de Chicago (1963/64) e vice-presidente da IPA, para a América do Norte (1965/73).
Kohut e seus contemporâneos foram herdeiros da Psicanálise clássica, fundada por Freud, calcada na sexualidade como gênese das neuroses e do keinianismo que colocava o ódio e a destruição como central a toda relação de objeto. Nos anos 50/60, a Psicanálise esteve representada pelo maior domínio do Anna freudismo, da Psicologia do Ego e pelos keinianos clássicos. A essas concepções psicanalíticas se seguiram uma postura ortodoxa que se apresentava na clínica, aos pacientes, através de regras fixas, grandes silêncios e falas denunciativas das resistências e das culpas. Kohut representou o que poderia se chamar terceira geração da Psicanálise, juntamente com Bion, Winnicott e Lacan.

O seu ambiente psicanalítico, em Chicago, tendia à vertente pragmática e normativa imposta pela Psicologia do Ego e pelos valores de puritanismo e individualismo da cultura americana, além da influência da ortodoxia freudiana e kleiniana.
Suas inquietações com o caminho que via a Psicanálise seguir, o levaram a escrever vários trabalhos que o destacaram no meio psicanalítico como um importante pesquisador das questões humanas. Por se considerar um freudiano e não tendo, ainda uma linguagem própria, Kohut expôs suas idéias através da metapsicologia freudiana.
Seu primeiro trabalho de psicanálise aplicada foi “Morte em Veneza, de Thomas Mann: uma história acerca da desintegração da sublimação artística”, texto que ele só publicou, em 1957, após a morte do autor por quem nutria profunda admiração ao ponto de dar seu nome, acrescido do nome de seu ex-analista de Viena, ao seu único filho (1950), Thomas August Kohut. Nesse trabalho, já é possível observar sua visão das relações humanas diferenciada da visão pulsional, embora não tivesse uma teoria que a sustentasse. Ele analisa a relação do personagem principal (Hirschbach) com o jovem Tadzio como uma busca de vitalização, fortalecimento numa tentativa de fazer frente à morte iminente.

A seguir, também em 1957, escreve um texto destacando como importante para o método psicanalítico o conceito de empatia. “Introspecção, Empatia e Psicanálise – um exame da relação entre modo de observação e teoria” é um texto epistemológico, cujo principal foco é a demarcação dos campos das ciências humanas. Assinala que os resultados de uma investigação relacionam-se diretamente com o método empregado. Chama a atenção para o uso indiscriminado de conceitos da biologia, sócio-psicologia e psicologia dentro da Psicanálise. Afirmou que o fenômeno psicológico só pode ser apreendido em seus aspectos subjetivos através da introspecção e empatia. Sua postulação instituiu como método de captação de dados e observação da experiência clínica o método introspectivo-empático, base de todas as suas pesquisas posteriores.
Em 1966, ainda imbricado na metapsicologia freudiana, escreveu sobre uma nova perceptiva sobre o conceito de Narcisismo em “Formas e Transformações do Narcisismo”. Calcado na definição de narcisismo de Heinz Hartmann, “investimento libidinal do self”, criticou a visão negativa dada ao conceito, considerando-a moralista e postulou que o narcisismo teria uma linha própria de desenvolvimento e se diferenciaria em duas formas, self narcísico (em 1968, ele substitui esse termo por self grandioso) e imago parental idealizada.
Essa postulação visava atender sua inquietação de que a teoria clássica não atenderia a clínica dos pacientes com transtornos narcísicos. Narcisismo passa a ser conceituado como uma estrutura da mente, com espaço nas relações humanas, tendo características evolutivas e se transformando através do tempo e das relações significativas.
Segundo seu depoimento, para entender e atender a esses pacientes necessitou superar suas próprias resistências em perceber a si mesmo como uma “função impessoal” e compreender que as falas de seus pacientes refletiam verdadeiramente a sua falta de compreensão e uso de inadequadas inferências. Através do método de observação e pesquisa de dados, criado por ele, percebeu que esses pacientes tinham necessidades específicas de vivenciarem com o seu analista experiências emocionais de espelhamento e validação de si mesmo.
Em continuação ao trabalho anterior, escreveu “Reflexões acerca do Narcisismo e da Fúria Narcísica” (1971), texto que traz expressivos questionamentos sobre a origem, função e destino da agressividade humana e postula sua concepção sobre a agressividade destrutiva ser reativa às ameaças de fragmentação do self.

4 – Mister Z
Consideramos como marco da teoria da Psicologia Psicanalítica do Self a publicação do livro “Análise do Self: uma abordagem sistemática do tratamento psicanalítico dos distúrbios narcísicos da personalidade”, 1971. Deu-se aqui um grande passo na construção da sua teoria. Embora seu campo estivesse restrito ao específico grupo de pacientes com transtornos narcísicos, ele já era portador de uma teoria própria e um método que já formalizavam uma psicologia em senso estrito. Nessa obra, kohut, ainda mantém como linguagem conceitual a metapsicologia freudiana o que torna sua compreensão complexa e dificultosa, contudo é de leitura obrigatória por nele estarem postulados os conceitos de selfobjeto, transferências narcísicas e internalização transmutadora.
A expressão Psicologia do Self aparece pela primeira vez em 1974 no ensaio “Observações sobre a formação do Self”, neste texto se destacam as metáforas do Homem Culpado, que se refere à dimensão do homem e suas pulsões, e do Homem Trágico, dimensão de sua busca de um sentido existencial. “A Restauração do Self”, publicado em 1977, inaugura a Psicologia Psicanalítica do Self e marca seu distanciamento de Freud ao postular “a ameaça de fragmentação do self” como gênese do adoecer humano e não os conflitos pulsionais.

Nesse momento, já existe uma escola teórica por já dispor de uma Psicologia de Desenvolvimento do Self, uma Psicopatologia e Estratégias técnicas. Esse livro foi escrito com Kohut sabedor de estar com uma doença incurável e crônica desde 1971. Destacam-se nele as propostas de: Estruturas defensivas e Estruturas Compensatórias, Self bipolar e uma revisão do conceito de Complexo de Édipo. Devido a suas formulações e postura técnica diferenciada da Psicanálise vigente sofreu várias acusações e o distanciamento de grande parte dos psicanalistas da época.
No verão de 1977, aos 64 anos, Kohut surpreendeu o mundo psicanalítico ao publicar “As duas análises do Senhor Z”. O texto descreve duas experiências de análise, de um paciente seu, ocorridas em diferentes épocas, uma com o enfoque nos conflitos edípicos e a outra com base nos seus novos conhecimentos da Psicologia Psicanalítica do Self. Segundo psicanalistas próximos a ele, existem fortes evidências de se tratar de sua autobiografia, embora ele nunca tenha admitido tal possibilidade. Alguns dias antes de sua morte, ele faz sua última apresentação na 4ª Conferência da Psicologia Psicanalítica do Self, em Berckley, embora acentuadamente debilitado, fala de improviso e com grande clareza sobre Empatia e a sua trajetória na Psicanálise.
Heinz Kohut faleceu em 08 de outubro de 1981.

Seu último livro foi escrito no início de 1980 e deixado em manuscrito, “Como cura a Psicanálise?”. Após sua morte, foi revisado por sua esposa, Elizabeth Kohut, e por A. Goldberg e P. Stepansky, foi publicado em 1984. Sua concepção visou responder questões levantadas acerca do livro Restauração do Self. Nele aprofunda seus principais conceitos, self, selfobjeto, empatia e acrescenta à teoria a concepção de transferência gemelar, como um modo especial de vínculo que cria a possibilidade da vivência da experiência de semelhança essencial. Reafirma sua teoria como uma teoria da proximidade, do paciente pela empatia e do conteúdo pela proximidade da experiência. Para ele o objetivo da análise seria “firmar o self de modo que se pudesse valer-se dos talentos e habilidades à disposição do individuo”.
“Introspecção Empatia e o Semicírculo da Saúde Mental” – 1981”. Último trabalho escrito por Kohut foi apresentado pelo seu filho, Thomas A. Kohut. Reafirma e enfatiza a importância da empatia no sentido epistemológico, de valor neutro, como “método de observação sintonizado na vida interior do homem”, e no sentido empírico, próximo a experiência, “como atividade de coleta de informações” e como “poderoso vínculo emocional entre as pessoas”.
Autor: Letícia T. Neves – Psicóloga e Psicanalista / Renato O. Barauna – Médico e Psicanalista

Texto apresentado na Jornada2006 (setembro), da ABEPPS (Item 2 do 1º Módulo)