Escuta Analítica, Empatia e Intuição


Letícia Tavares Neves – Psicóloga e Psicanalista

Introdução
A escuta analítica, empatia e intuição são formas de aquisição do conhecimento. Embora distintas, são meios de contato do analista e do analisando.

O uso contínuo dos termos escuta analítica e empatia na clínica contemporânea e no discurso das análises psicanalíticas resultou no consenso e legitimação de seus conceitos, embora eles, a cada dia, não se mostrem tão claros e definidos.
No cenário psicanalítico estes termos carregam em si uma conotação positiva que qualifica seu uso e os dispensa de maiores explicações. São usados, em grande parte, como se fossem auto-explicativos e trouxessem às comunicações psicanalíticas uma valorização pessoal, garantia da sensibilidade profissional. O mesmo não acontece com o termo intuição. Embora, a produção de insight seja um dos objetivos do processo analítico, seu uso não possui status no discurso psicanalítico.

Este texto tem como foco uma aproximação destas questões e utiliza como base teórica os conhecimentos da Psicologia Psicanalítica do Self Contemporânea que abrange as principais concepções da Intersubjetividade e da Psicanálise Relacional.

Escuta analítica
Escutar não é um simples exercício de um dos nossos cinco sentidos. A escuta está determinada pela nossa subjetividade e pelo contexto no qual ela ocorre. O que escuto se torna conhecimento se eu puder apreender seu conteúdo e inseri-lo num sistema de relações. Assim sendo, está sujeito aos limites impostos pela condição humana.

Na relação analítica a escuta abrange todos os sentidos e todas as formas de aquisição do conhecimento.

Posso dizer que escuto o que vejo ou sinto, ou intuí e disso criar hipóteses e diálogos. Ao sentir-se escutado, o analisando vive uma experiência de validação da sua existência.

A escuta analítica começa sua construção na própria pessoa do analista, nas suas escolhas e afinidades. O ser que recebe seu analisando se constituiu num contexto relacional, é formador de novos e diferentes contextos que o modifica e são modificados por ele. Nessa concepção, o escutar se dá num campo intersubjetivo formado pelas subjetividades do analista e do analisando. Ela tem como foco primordial o material que emerge desse campo relacional e utiliza como instrumento investigativo a empatia

Empatia
O termo empatia carrega em si diferentes conceituações e uso.

Heinz Kohut foi o psicanalista que mais contribuiu para o uso desse conceito em psicanálise, sendo também responsável por algumas de suas diferentes concepções. Podemos cronologicamente assinalar seu uso e conceituação ao longo de sua obra.

1959 – Publicação do artigo “Introspecção, Empatia e Psicanálise”, nesta obra apresenta empatia num contexto epistemológico, introspecção vicária, como método de observação e coleta de dados.

1966 – No artigo “Formas e transformação do Narcisismo”, postula o narcisismo com uma linha própria de desenvolvimento e a empatia como uma das formas de transformação do narcisismo, entre as demais, humor, consciência de finitude, criatividade e sabedoria.

1973 – Em “A Psicanálise em uma Comunidade de Eruditos” ele desdobra sua compreensão da empatia: – “A empatia, a expansão do self até incluir o outro, constitui um poderoso vínculo psicológico entre os indivíduos e, talvez mais que o amor,…”

– “A empatia, o eco humano de aceitação, confirmação e compreensão evocado pelo self, é um elemento sem o qual a vida humana, como a conhecemos e prezamos, não poderia ser sustentada”.

1981 – Último trabalho escrito por Kohut foi apresentado pelo seu filho, Thomas A. Kohut. Reafirma e enfatiza a importância da empatia no sentido epistemológico, de valor neutro, como “método de observação sintonizado na vida interior do homem”, e no sentido empírico, próxima a experiência, “como atividade de coleta de informações” e como “poderoso vínculo emocional entre as pessoas”.

Como um psicanalista sensível à questão do conhecimento, Heinz Kohut chamou a atenção para os nossos limites, nosso narcisismo e para a relatividade dos enquadres conceituais moduladores das nossas percepções e entendimentos. Segundo suas palavras, “o campo que é observado inclui obrigatoriamente o observador” (Kohut, 1984). No seu entender clínico o alvo do interesse do psicanalista seria o saber do analisando sobre seu próprio mundo.
Nesse exercício, adotou a empatia como um método de abordagem para o que considerava ser o conteúdo específico da Psicanálise – os fenômenos psicológicos. Postulou, como principal constituinte da escuta analítica, o método empático introspectivo (1959). Empatia tornou-se um conceito epistemológico e a perspectiva fundamental da escuta analítica para a Psicologia Psicanalítica do Self. Empatia é um instrumento de coleta de informações, uma forma neutra de obtenção de dados, aproximação do mundo do analisando sob o ponto de vista deste de si mesmo e dos outros. Empatia é uma profunda pesquisa, um intenso interesse em conhecer o outro a despeito das convicções e saberes do analista, indiferente do que ele gosta, aceita ou admite do que escuta, é estar o mais próximo possível de como o analisando vive a sua experiência.

A partir dos anos 80 acrescentaram-se outras dimensões à escuta analítica da Psicologia Psicanalítica do Self. A teoria, tal qual descrita nos textos de Heinz Kohut, estendeu e ampliou seus conhecimentos agregando ao seu corpo teórico concepções contemporâneas dos teóricos da Intersubjetividade e da Psicanálise Relacional. Seus principais pontos convergentes são a empatia e a concepção da matriz relacional ou campo intersubjetivo.

A Intersubjetividade, representada por Robert Stolorow*, postula que todo o processo de constituição e transformação das subjetividades se daria num campo intersubjetivo ou matriz relacional. Campo intersubjetivo, na sua visão, é a interseção de diferentes mundos subjetivos organizados que interagem mutuamente de forma recíproca.

Com idéias similares, a Psicanálise Relacional propõe que “as relações com os outros constituem os blocos fundamentais na construção da vida mental” (Mitchell*, 1983). “Pelo fato de aprendermos a nos tornar uma pessoa através das interações com diferentes outros e através de diferentes formas de interações com o mesmo outro, nossa experiência de self é descontínua, composta de diferentes configurações, diferentes selves, com diferentes outros.” (1991)

A convergência dessas teorias colocou em questão alguns fundamentos do pensamento kohutiano. Suas posições sobre a empatia tiveram algumas objeções. Os teóricos da Intersubjetividade questionam a “neutralidade” do conceito de empatia como método investigativo e o uso da empatia como vínculo terapêutico que, segundo suas concepções,

reforçariam um mundo voltado unicamente para o próprio self.

Nesta atual concepção, a empatia se manteve como método investigativo privilegiado da escuta analítica, mas o lugar do analista se transformou.

Na posição kohutiana o analista se colocava ativamente no lugar de ser vivido como uma extensão do próprio analisando e cabia a ele exercer a função de favorecer empaticamente as respostas sintonizadas às demandas do analisando. O analista buscava o déficit, a falha empática que impediu o desenvolvimento do self de seu analisando, em sua vida e na relação analítica.
Na perspectiva da Intersubjetividade o foco da escuta analítica se desloca para o campo formado pelas subjetividades do analista e do analisando, por eles chamada de matriz intersubjetiva. A escuta analítica é contextualizada. Seu cerne está na investigação do sistema relacional formado pelas subjetividades da dupla. O principio motivacional básico é o esforço para a organização da experiência. Busca-se focalizar os elementos conscientes da experiência relacional, como também, a observação e elucidação dos princípios inconscientes organizadores das experiências do analisando. Esses princípios organizadores, por serem processos inconscientes e sintônicos com o viver do analisando, são observáveis no contexto intersubjetivo através do impacto que essas vivências provocam na subjetividade do analista.
Através da empatia, são verificáveis na forma de temas recorrentes, imagens ou esquemas relacionais que repetidas vezes modulam e/ou direcionam suas escolhas e formas de relacionamento com o ambiente e com o analista. Esses elementos invariantes são percebidos pelo analista na sua própria postura, atitudes e afetos em relação ao analisando. O analista, introspectivamente, volta-se para observar como ele se relaciona com esses elementos e o impacto deles com os seus próprios princípios organizadores das experiências.

Intuição

Do latim intuere significa “ver por dentro”. O seu sentido usual mais comum é “ver além”. Intuição representa perceber, discernir, ter a conscientização espontânea de um novo conhecimento sem que o sujeito tenha feito uso da experiência ou da razão para captar a idéia.

Observamos que sua definição está comumente ligada ao não racional, ao que escapa ao conhecimento lógico, um sentimento que impõe uma idéia ou ação, um sexto sentido, um olho clínico, uma revelação, etc. São respostas rápidas e precisas que, aparentemente, não passam pelo processo de análise e crítica.

Com o significado de ser ato ou capacidade de pressentir, Intuição, se aproxima do conceito de pensamento mágico, pensamento animista. Em determinados grupos, onde o conhecimento científico não tem primazia, ser intuitivo é um grande elogio, uma qualidade validadora do sentimento de si mesmo. Nesse sentido, ter intuição é possuir uma aura extra-sensorial, uma possibilidade de estar em contato com o incognoscível. Trata-se de um dom de saber sem saber que se sabe.

A intuição é um fenômeno psicológico comum a todos os seres humanos e sua significação e uso depende da cadeia de relações em que ela se insere. Este fenômeno pode ser vivido como uma premonição, interpretação transcendental ou um insight, uma interpretação cognitiva. Pode, também, despertar aspectos persecutórios ou fóbicos, como também, aguçar a curiosidade epistemológica.

Kohut diferenciou empatia de intuição (1971), relacionando empatia à observação científica e intuição a reações sentimentais, não científicas. Afirmou que uma análise bem sucedida propicia o aumento da empatia e a subseqüente diminuição das reações intuitivas do analisando. Justificou sua tese considerando que a elaboração dos processos psicológicos diminuiria a propensão ao pensamento mágico e a desejos de onisciência.

Intuições têm o caráter de verdade quando são confirmadas pelo ambiente, estas, se cristalizam passando a fazer parte das teorias pessoais, formando visões do mundo. Os conhecimentos adquiridos através da intuição quando confirmados ou não negados formam padrões, esquemas vivenciais formadores dos “princípios organizadores inconscientes da experiência”.

Os princípios organizadores da experiência se constituem, de forma geral, num processo de regulação mutua, inicialmente entre a criança e seus cuidadores, e se estendem a todos os seus contextos intersubjetivos (Storolow).

Conclusão

Tendo a empatia como instrumento da coletas de dados, o analista que trabalha a relação analítica dentro do campo intersubjetivo tende a compreender o que ocorre no processo analítico como uma co-construção da dupla. Dessa forma, a intuição é vivida como um elemento que tem a mesma categoria que os demais dados suscitados no encontro analítico.

Ela é incorporada ao processo analítico onde se transforma em hipótese de pesquisa. A escuta analítica se coloca no impacto que a intuição provoca no analista e no analisando e em como a dupla se relaciona, naquele momento, com tal fenômeno.

Referências bibliográficas:
FOSSHAGE, James L., Ph. D. Contextualizando a Psicologia do Self e a Psicanálise relacional. In Contemporary Psychoanalysis, 2003, vol. 39, nº. 3.
KOHUT, HEINZ. Análise do Self: uma abordagem sistemática do tratamento dos distúrbios narcísicos da personalidade; tradução de Maria Tereza B. M. Godoy. Rio de janeiro, Imago Ed., 1988.
___ Como Cura a Psicanálise?; tradução de José Octavio de A. Abreu. Porto Alegre, Artes Médicas, 1989
_____________ Introspecção, Empatia e o Semicírculo da Saúde Mental; Londres, International Journal of Psychoanalysis, 1981, 63: 395 – 407
STOLOROW, Robert D. Ph. D. Interview with Stolorow; In Revista Percurso, nº 24
_________________________ An intersubjective view of Self Psychology; In A Journal of Relational Perspective, New York , 1995, vol. 5, nº 3, pág. 393 – 399.
STROZIER, Charles B. Heinz Kohut: The making of a psychoanalyst; Other Press LLC, New York , 2004.

Texto apresentado no XXI Congresso Brasileiro de Psicanálise (Porto Alegre – maio de 2007)