Freud e Kohut: uma confrontação?

Freud e Kohut: uma confrontação?
Freud and Kohut: a confrontation?

Autores:

Renato Oliveira Barauna

Psicanalista-didata e Supervisor da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ).

Membro Fundador da Associação Brasileira para o Estudo da Psicologia Psicanalítica do Self (ABEPPS).

Endereço: Rua Santa Clara, 50/720 – Copacabana

CEP 22041-012 – Rio de Janeiro – R.J.

E-mail: renatobarauna@pobox.com

Pedro Henrique Bernardes Rondon

Psicanalista. Membro Efetivo da Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro (SPCRJ).

Membro Efetivo da Associação Brasileira para o Estudo da Psicologia Psicanalítica do Self (ABEPPS).

Endereço: Rua Santa Clara, 50/616 – Copacabana

CEP 22041-012 – Rio de Janeiro – R.J.

E-mail: phrondon@br.inter.net

Setembro/2009

FREUD E KOHUT: UMA CONFRONTAÇÃO?[1]

“Eu sou uma criança do século XX e Freud um homem pleno [a clearly man] do século XIX “.

Kohut (In: Cock [ed.], 1994, p. 427)

Foi através de August Aichhorn, seu primeiro analista, que Kohut ficou sabendo que Freud estava para partir de Viena, para escapar à perseguição antissemita do governo nazista. E em 3 de junho de 1938, compareceu à estação ferroviária da cidade, para assistir à partida de Freud. Segundo declaração do próprio Kohut, este encontro teve grande significado em sua história pessoal, levando-o a decidir dedicar-se à Psicanálise, pois ficou com a forte sensação de que Freud lhe passara uma missão – a de se tornar um dos seus seguidores.

Em seu livro Heinz Kohut – The Making of a Psychoanalyst, Charles Strozier escreve:

Este evento tornou-se para Kohut o que ele chamava um ‘mito pessoal’ … A cena evocava duradouras continuidades vienenses num mundo fragmentado … A despedida de Freud veio no momento que tanto foi o ‘ponto baixo de minha vida’ como a ‘fonte dos meus mais importantes compromissos com o futuro’. ‘Eu era jovem, o mundo que conhecia, a cultura na qual eu havia crescido, tinha desmoronado. Não havia nada em que me segurar’. De repente, ele se encontra quase sozinho na plataforma, saudando com seu chapéu o grande fundador da Psicanálise, com o trem levando Freud para longe. Este momento na estação de trem tornou-se ‘a gênese para o meu futuro profissional e científico’ (Strozier, 2001, p. 58. A tradução é nossa).

Antes do final de março do ano seguinte Kohut deixou Viena no Orient Express rumo a Paris, e daí alcançou a Inglaterra, permanecendo num campo de refugiados até conseguir o visto para a emigração em direção aos Estados Unidos, onde chegou em março de 1940. Nos anos de que seguiram, Kohut tratou de completar sua formação de médico, fazendo residência em Neurologia na Universidade de Chicago onde, em 1947, tornou-se Professor Assistente de Psiquiatria. Durante todo esse tempo, mantendo a atitude de reverente idealização que construíra a partir daquele breve momento na estação ferroviária, dedicou-se ao estudo aprofundado da obra freudiana, tendo-se graduado psicanalista em 1950 pelo Instituto de Psicanálise de Chicago.

Já exercendo a clínica particular como psicanalista, em 1953 torna-se docente do Instituto de Psicanálise de Chicago, no qual foi professor de metapsicologia freudiana durante 18 anos. Sua dedicação ao estudo dos trabalhos de Freud – e o profundo conhecimento que demonstrava – foram a origem do generoso apelido pelo qual era identificado no Instituto: “Mr. Psychoanalysis”.

Quando nos propomos a fazer a confrontação entre Freud e Kohut, temos que começar perguntando-nos com que Freud estamos comparando Kohut? O Freud que procurava construir uma psicologia científica que pudesse se pôr em pé de igualdade com as ciências naturais (físicas), ou o Freud que quase por acaso descobriu o método psicanalítico para a investigação das motivações inconscientes do comportamento humano? Uma avaliação histórica mostra que o método da psicanálise, juntamente com as descobertas clínicas a que deu origem, e a teoria do aparelho mental que Freud desenvolveu para explicar suas descobertas clínicas, não são uma mesma coisa. Somente esclarecendo a diferença é que poderemos avaliar se a obra de Kohut realça ou solapa as contribuições de Freud (Basch, 1989).

A teoria psicanalítica da formação do pensamento e da motivação

O objetivo de criar uma psicologia geral científica levou Freud em primeiro lugar, no trem em que voltava de Berlim, depois de um de seus encontros com Wilhelm Fliess, a criar o “Projeto para uma psicologia científica” (Freud, 1895a), onde utilizou seu conhecimento de neurologia e fisiologia para tentar explicar as origens do pensamento e da motivação humana. Mais tarde, nas várias versões do aparelho mental não anatômico, passando pelo modelo topográfico (Id., 1915a), com suas divisões em estados mentais inconscientes, pré-conscientes e conscientes; e chegando à versão final de id, ego e superego (Id., 1923), Freud continuou empregando informações provenientes de outras áreas do conhecimento, como a biologia.

Para compreender a teoria freudiana que explica a motivação humana, temos que nos lembrar de que esta também era uma hipótese, e não resultou de suas observações clínicas. Na época em que Freud estava realizando essa importante parte de sua teorização, nas ciências médicas os hormônios estavam sendo descobertos. A descoberta de que no sangue havia poderosas forças de natureza química por meio das quais uma parte do corpo influenciava o funcionamento de outra parte – por exemplo, o cérebro secretava uma substância química (hormônio) que influenciava a glândula tireóide a produzir suas secreções – constituiu uma explicação revolucionária, e é natural que Freud se baseasse nisso para tentar explicar o que observava em seu trabalho com pacientes neuróticos (Basch, 1989, op. cit.).

Freud ficava intrigado com a força das idéias neuróticas, que podiam superar o bom-senso e literalmente paralisar uma pessoa que, por outro lado, era perfeitamente saudável. De onde tiravam essa força? Hipnotizando seus pacientes e fazendo a regressão de idade, Freud descobriu que as experiências sexuais e/ou fantasias da infância eram responsáveis por lançar a base para aquilo que mais tarde viria a se tornar fenômenos neuróticos. Ele associou esse achado clínico a uma especulação biológica: as secreções dos testículos, quimica ou mecanicamente, ao estirar o tecido conjuntivo à volta dos testículos, enviavam mensagens ao cérebro que então energizava idéias sexuais que aí estivessem presentes. Freud não tinha como explicar a mecânica dessa transformação – chamou isso de “salto misterioso” entre o somático e o psíquico. Seja como for, era essa secreção sexual somática convertida em energia sexual que fornecia a força motivadora para o comportamento. As idéias neuróticas eram tão fortes porque atraíam mais dessa força para si mesmas do que outras idéias e motivações, e consequentemente dominavam a vida mental (Freud, 1895b, p. 108).

Essa noção primitiva, puramente especulativa e que desde então não foi comprovada, é a base para a teoria freudiana dos instintos e para a idéia de que a sexualidade é a base para toda motivação (Basch, 1989, op. cit.). O próprio Freud esclareceu explicitamente que suas teorias acerca de pulsões e instintos eram especulações biológicas que fez para explicar suas descobertas clínicas. Como ele disse, essas idéias foram antes impostas às observações psicanalíticas, do que derivadas dessas observações (Freud, 1915). Ele reconhecia que essas hipóteses eram, no máximo, imprecisas e insatisfatórias, e se referia à teoria dos instintos como sendo a “mitologia” da psicanálise (Freud, 1933, p. 95). Freud antecipou que finalmente sua teoria da libido e da natureza dos instintos viria a ter fundamentação orgânica adequada, mas na ausência de uma teoria definitiva de instintos sentia-se justificado de especular acerca de seu substrato biológico à base das descobertas psicológicas (Id., 1914). Ora, é verdade que quando Freud achou isso útil, a natureza inicialmente experimental das especulações extra-analíticas tendeu a ser esquecida, como se o fato de que essas hipóteses tivessem passado a ser empregadas repetidamente pudesse tê-las tornado mais factuais. O mesmo ocorreu com as teorias de instinto e pulsão (Basch, 1989, op. cit.).

A origem do método psicanalítico

A psicanálise, como método de investigação, teve início quando Freud compreendeu que (1) boa parte daquilo que os pacientes neuróticos adultos apresentavam como lembranças realmente era fantasia infantil; (2) quando influenciava o comportamento ulterior, a realidade psíquica era tão importante quanto a realidade externa; e (3) as tentativas de transformar a fantasia infantil em realidade adulta, projetando na situação presente aquilo que o paciente desejava ou temia (transferência), era um processo contínuo que se manifestava no relacionamento entre o analista e paciente. Em sua prática, Freud percebeu que a interpretação dessa transferência é que levava à resolução da neurose. Reviver o antigo trauma numa nova edição com o analista envolve tanto a vida emocional quanto a vida intelectual do paciente, e finalmente demonstra ser curativo. O manejo, o exame e a resolução da transferência tornaram-se a base para a psicanálise, e isso é assim até hoje. É o que identifica o método psicanalítico e, provavelmente, é o princípio cuja importância todos os analistas aceitam (Basch, 1989, op. cit.).

O problema para a teoria psicanalítica foi que o método psicanalítico funcionava bem demais, pelo menos no início, e Freud achou que o sucesso do método era a prova experimental de sua teoria geral do desenvolvimento do pensamento, e de seu conceito de como a mente funcionava. Ele parece ter raciocinado que as vicissitudes da sexualidade infantil é que eram fundamentais para o início de uma neurose. Sonhos, lapsos de linguagem e outras falhas da vida cotidiana de pessoas sadias mostram que a sexualidade infantil é parte do desenvolvimento normal. Portanto, o desenvolvimento reconstruído na análise dos pacientes neuróticos espelhava o desenvolvimento de todas as pessoas: as neuroses mostravam em alto relevo aquilo que, em outras pessoas, habitualmente fica oculto pela resolução do complexo de Édipo (Id., ibid.).

O método empático-introspectivo, expansão do método psicanalítico

Kohut estava bem consciente de que método e teoria não são a mesma coisa e, ainda que dentro da reverente idealização que mantinha em relação à figura de mestre que Freud representava, quis mostrar isso com clareza. Assim, para muitos psicanalistas a divergência de Kohut quanto à psicanálise freudiana não se iniciou com a introdução do que veio a ser conhecido como psicologia do self (Kohut, 1971), mas sim bem antes disso, com o artigo “Introspecção, empatia e psicanálise – um estudo da relação entre método de observação e teoria” (Id., 1959). Nesse ensaio, que considerava sua contribuição mais importante, e que foi lido nas comemorações do 25º aniversário do Instituto de Psicanálise de Chicago, Kohut esboçou evidências históricas e epistemológicas para mostrar que a essência da psicanálise estava na descoberta freudiana do método psicanalítico. Essa investigação do pensamento e da motivação humana, que é o método psicanalítico, permitiu que o significado mais profundo das introspecções que um paciente verbaliza pudesse ser compreendido por meio da imersão do analista na vida psicológica do paciente (Basch, 1989, op. cit.). Na experiência psicológica os dados são coletados por meio da empatia (introspecção vicariante) do observador (o analista) sobre a experiência emocional do observado (o paciente), e processados de volta pela introspecção do observador. Assim, só podem ser tomados como psicológicos os dados obtidos por esse método empático-introspectivo. Isso deixava de fora todos os dados teóricos inferidos por especulação distante da experiência, à base de dados obtidos a partir de outros campos, como a biologia e a sociologia, em que são coletados no mundo externo a partir da observação extrospectiva, isto é, por meio dos órgãos dos sentidos.

Naquele artigo Kohut dizia que

O conceito de pulsão em psicanálise, por exemplo, é assim derivado da observação por introspecção de inumeráveis experiências, como vai ser demonstrado mais adiante; mas uma pulsão por si mesma não pode ser observada. Outros conceitos, como o da aceleração nas ciências físicas ou o do recalcamento em psicanálise, não se referem diretamente aos fenômenos observados. Mas tais conceitos evidentemente pertencem à estrutura total de suas ciências respectivas porque designam relações entre os dados observados. Observamos corpos físicos no espaço, anotamos suas posições físicas ao longo de um eixo de tempo e assim chegamos ao conceito de aceleração. Observamos introspectivamente pensamentos e fantasias, observamos as condições de seu aparecimento ou desaparecimento e chegamos, assim, ao conceito de recalcamento (Kohut, 1959/1978, p. 207. A tradução é nossa.).

Essas idéias provocaram forte reação na comunidade psicanalítica então, uma vez que os psicanalistas percebiam que no artigo, ao afirmar que o fundamento de qualquer ciência estava em seu método e não em sua teoria, indiretamente Kohut estava desafiando a supremacia que a teoria freudiana das pulsões tinha na psicanálise (Basch, 1989). Kohut não tinha tal intenção consciente, e sempre acreditou estar dentro da corrente principal do pensamento psicanalítico, pensando estar tratando de expandir o corpo da teoria, procurando superar aquilo que via como barreira ao desenvolvimento.

Simultaneamente com a concepção do método empático-introspectivo, como definidor de um campo epistemológico, Kohut estava introduzindo o método clínico de coleta de dados na experiência analítica. A empatia apresenta-se, assim, como um método, em primeiro lugar, definidor do campo psicológico (empatia distante da experiência, nível epistemológico) e, em segundo lugar, como método clínico de captação de dados (empatia próxima da experiência, nível empírico) que, na clínica, pede tratamento hermenêutico. O analista se posiciona como um decodificador, intérprete do discurso do outro, no contexto da experiência – o que equivaleria a pensar dentro da vida interna do outro (Barauna, 1995)

A empatia clínica, empírica no sentido de ser mais próxima da experiência, propicia a criação de teorias para entendimento do humano como singularidade complexa. A empatia, no nível mais alto de abstração, adquire sua dimensão epistemológica, ao gerar teorias abrangentes que cobrem o conjunto das experiências psicológicas, além de criar referenciais que iluminam o singular a partir da totalidade, e produzem explicação (Id., ibid.).

Nessa perspectiva, os dois planos da experiência empático-introspectiva – o empírico e o epistemológico – se articulam de maneira complementar, permitindo a expansão de cada um e de ambos os campos, quando se movem da abstração incipiente até a alta abstração, ao cambiar do particular para o coletivo, ao transitar do entendimento à explicação e ao reverter esses movimentos numa permuta dinâmica e ampliada (Id., ibid.).

O método empático-introspectivo, concebido por Kohut desde 1957, caracterizava-se como um recurso empírico em construção, cuja consistência clínica consolidou-se a partir de 1971, quando então ele já dispunha de instrumentos oriundos da teoria e da teoria da técnica, que progressivamente possibilitariam ao método uma trajetória em que a dimensão epistemológica avança até uma proximidade maior com a experiência. Tal aproximação foi-se viabilizando pela constituição de recursos de observação que permitiam acesso a determinadas áreas da experiência psicológica que não poderiam ser alcançadas por outros caminhos. Estando o referencial teórico do analista sustentado por uma concepção do humano como um ser em permanente transformação, possuindo configurações muito próprias, a postura empática permite que ele aguarde o que está ocorrendo sem precisar antecipar impondo teorias previamente conhecidas.

Muitos anos mais tarde Kohut (Id, 1982/1991) escreveu que, em seguida à sua apresentação de 1957, os debatedores expressaram grande divergência em seus pontos de vista a propósito do artigo: das violentas objeções de um, passando pela crítica severa porém respeitosa de outros, até a aceitação e o louvor de outros, houve mais crítica do que aceitação; e foi Maxwell Gitelson quem insistiu que, por maiores que pudessem ser as dúvidas dos psicólogos do ego de Nova York, o artigo tinha que ser publicado pelo Journal da Associação Psicanalítica Americana, o que ocorreu em 1959.

No trabalho publicado postumamente (Id., 1982/1991, op. cit.), procurando compreender as razões por que sua apresentação de 1957 teria encontrado tamanha oposição entre os psicanalistas, Kohut escreveu que isso só podia ser resultado de compreensão equivocada. Naquela ocasião ele falava da empatia de um ponto de vista epistemológico em que, como deve estar implícito, constitui um valor neutro – não é necessariamente correta nem está obrigatoriamente a serviço da afeição ou da compaixão. É apenas um método de observação sintonizado na vida interior do outro, exatamente como a extrospecção é um método de observação sintonizado no mundo externo.

Entretanto, diz Kohut, é preciso examinar e avaliar a empatia num contexto empírico como atividade mental, seja ela empregada na vida cotidiana ou nas pesquisas científicas. A propósito desta abordagem próxima à experiência, distinguem-se dois níveis: (a) a empatia como atividade de coleta de informações, e (b) a empatia como poderoso vínculo emocional entre pessoas (Kohut, 1982/1991, op. cit..).

Kohut compreendeu que a postura básica da atenção flutuante do analista, o qual acompanhava a associação livre de seu paciente numa atitude de neutralidade, deixava o analista como observador externo não implicado no campo. Pensou então que na experiência psicológica os dados são coletados por meio da empatia (introspecção vicariante) do observador, o analista, sobre a experiência emocional do paciente, e processados pela introspecção do analista. Dessa maneira, o analista passa a ficar implicado dentro do campo, sendo influenciado pelo observado e ao mesmo tempo influenciando-o. Isso significou uma expansão do método conforme tinha sido apresentado inicialmente por Freud. Naquela visão inicial o analista ficava na posição de um investigador que, numa postura de neutralidade, procura no observado aquilo que já sabe que está lá – a confirmação das teorias que já conhece. Na nova visão, o analista implicado no campo está esperando que surja aquilo que ele não conhece ainda.

Como atividade de coleta de informações, de reunião de dados, a empatia, Kohut diz, pode estar certa ou errada, a serviço da compaixão ou da hostilidade; por si mesma, nunca é terapêutica ou apoio, mas é condição necessária para que possa funcionar como apoio ou terapêutica.

É possível compreender e mesmo desculpar a confusão entre empatia e empatia-sempre-certa-e-precisa, desde que se tenha em mente que a visão de que a correção e a exatidão da empatia de uma mãe diante de seu bebê devem ser consideradas ‘normais’, e certamente os erros grosseiros, freqüentes e prolongados da empatia materna são ”anormais” (Kohut, 1982/1991, op. cit., p. 545. A tradução é nossa.).

Mas, acrescenta ele, ainda que a empatia da mãe seja correta e exata, e que seus objetivos sejam afetuosos, não é a empatia dela que atende as necessidades da criança: suas ações e suas respostas à criança é que fazem isso. Mas para que atinjam seu fim adequado, essas ações e respostas têm que ser guiadas pela empatia correta e precisa. Assim, a empatia informa a função parental diante da criança, mas não constitui, por si mesma, a função indispensável à criança. E Kohut acrescenta: “nem é preciso dizer que uma consideração semelhante se aplica à análise” (loc. cit.).

O trabalho sobre narcisismo

Em seu trabalho clínico, em contato com pacientes graves, Kohut começou a questionar aquilo que via como limitações da teoria e da técnica psicanalítica tradicional, dedicando-se especialmente ao estudo do narcisismo. Resultou daí seu artigo “Formas e Transformações do narcisismo”, apresentado em dezembro de 1965 e publicado no Journal of the American Psychoanalytic Association (Kohut, 1966/1984). Neste trabalho Kohut define o narcisismo como o “investimento libidinal do self”, e chama atenção para a avaliação depreciativa do narcisismo como algo patológico ou nocivo, em comparação ao amor objetal, o que tendia a levar “a um desejo, por parte dos terapeutas, de substituir a posição narcísica do paciente pela de amor objetal” (Id., ibid., p.7). Daí ele parte para uma demonstração de que se uma parte do narcisismo evolui para a relação objetal, outra parte tem uma linha própria e separada de desenvolvimento, levando de formas primitivas de narcisismo, para outras formas maduras (criatividade, capacidade de empatia, senso de humor, aceitação da transitoriedade e sabedoria). Nisso Kohut faz um contraponto à visão freudiana (1914) do narcisismo como evoluindo numa linha única de desenvolvimento em direção ao amor objetal

Para Kohut embora o conceito de narcisismo primário tenha sido extrapolado de observações empíricas, ele não se refere ao campo social, mas ao estado psicológico do bebê que originalmente vivencia a mãe e suas ações não como um tu e suas ações, pois essa diferenciação eu-tu ainda não se estabeleceu.

Assim, o esperado controle sobre a mãe e suas ações está mais próximo do conceito que o adulto tem de si mesmo e do controle que conta exercer sobre seus próprios corpo e sua mente, do que da vivência de um adulto acerca dos outros e de seu controle sobre esses outros (Kohut, 1966/1984, op. cit., p. 9).

Nesse ponto Kohut está descrevendo aquilo que mais tarde (1978) virá a chamar de selfobjeto (grafado com hífen, “self-objeto”, em textos anteriores), conceito que marcará profundamente sua teoria: ao longo de todo o curso da vida o self tem necessidade de respostas de selfobjetos, sendo estas variáveis conforme o amadurecimento.

As transferências selfobjeto

Em 1968 Kohut apresentou seu artigo “O tratamento psicanalítico das perturbações narcísicas da personalidade: esboço de uma abordagem sistemática“ (Kohut, 1968/1984), que foi uma espécie de “nota prévia” de sua futura monografia A análise do self (1971), onde mostrou seus novos insights clínicos obtidos pela observação de pacientes ditos graves.

Dentre outros casos apresentados nessa obra, está o exemplo paradigmático do tratamento daquela que chamou de Srta. F. Durante longo período dessa análise, conduzida de acordo com a técnica tradicional, desde determinado momento em que não estava compreendendo a psicopatologia da paciente, Kohut observou uma sequência em que ela chegava numa disposição amável, deitava-se e começava a comunicar seus pensamentos e sentimentos, e tudo parecia correr bem. Logo, porém, percebia que não estava conseguindo manter sua atenção concentrada no que dizia a Srta. F, e ela começava a reclamar do silêncio dele. Se tentava fazer alguma interpretação abordando aspectos da transferência, ela se mostrava profundamente irritada, e o acusava de estar arruinando a análise. Kohut diz que sua tendência era discutir com ela o acerto de sua interpretação até que, depois de prolongado período de incompreensão, deu-se conta de que o caráter repentino das irrupções da fúria da paciente parecia indicar que se tratava de alguma forma de necessidade arcaica. Logo percebeu que se, em suas intervenções, ele se limitasse a resumir e repetir aquilo que ela tinha acabado de dizer, sem procurar acrescentar nada de seu pensamento, ela ficava imediatamente calma e satisfeita.

Certas convicções só podem ser obtidas diretamente e, assim, eu não seria capaz de demonstrar em pormenor o acerto das conclusões a seguir. Durante essa fase da análise, a paciente tinha começado a mobilizar uma imagem arcaica, intensamente catexizada do self que até aqui tinha ficado reprimida. Concomitantemente à remobilização do self grandioso ao qual tinha ficado fixada, surgiu também a necessidade renovada de um objeto arcaico que nada mais era que a corporificação de uma função psicológica que o psiquismo da paciente ainda não conseguia realizar por si mesmo: responder empaticamente à sua exibição narcísica e fornecer-lhe sustento narcísico aprovando-a e funcionando como espelho e eco. Assim, a paciente tentava, com o auxílio da minha presença especular, confirmadora, integrar um self arcaico hipercatexizado ao restante da personalidade. Esse processo começou nesse estágio com uma cuidadosa reafirmação de um sentido de realidade de seus sentimentos e pensamentos; mais tarde, moveu-se gradualmente em direção a uma transformação de suas intensas necessidades exibicionistas num sentido egossintônico de seu próprio valor e num usufruir de suas próprias atividades (Kohut, 1968/1984, p. 64)..

Em suma, foi a aplicação do método empático-introspectivo que levou Kohut a perceber que as queixas da Srta. F não eram resultado de resistência ao processo psicanalítico, mas uma reação a algo que não estava sintônico na relação analítica. Naquela ocasião, desejando manter-se dentro da corrente tradicional da psicanálise, Kohut inicialmente chamou tais fenômenos de “estruturas semelhante à transferência” e, em seguida, de “transferências narcísicas”, com suas variedades (especular, idealizadora e gemelar ou alter-ego).

A psicologia do self

Em todos os seus trabalhos Kohut lidava mais diretamente com o self do que com o ego. Sua conceituação do self ficou um pouco sistematizada na discussão que fez de um artigo de Douglas Levin chamado “The self: a contribution to its location in theory and technique”. Nessa discussão (Kohut, 1970/1984), Kohut diz que o self é um conceito da psicologia profunda, mas é uma abstração psicanalítica de nível relativamente mais baixo, isto é, mais próxima da experiência, diferente de ego, id e superego que são abstrações de nível relativamente mais elevado, mais distante da experiência. Ele afirma que nesse momento a estrutura teórica tradicional proporciona abrigo apropriado para o self como conceito subsidiário, como conteúdo do aparelho mental, não sendo uma quarta instância da mente (Kohut, 1970/1984, p. 76). Só mais tarde (Id., 1977) ele veio a deixar de lado as abstrações “de nível mais alto”, passando a falar de uma “psicologia do self”, a principio qualificada de “em sentido estrito”, com o self visto como conteúdo do aparelho mental, depois dita “em sentido amplo”, em que não há mais referência às instâncias freudianas da mente.

A questão do complexo de Édipo

Afastando-se do ponto de vista freudiano, que situava o complexo de Édipo no núcleo de todos os conflitos que resultavam na patologia psiconeurótica, Kohut achou vantajoso fazer uma distinção entre (1) uma fase edípica ou período edípico, em que se referia a determinadas experiências – normais, potencialmente patogênicas ou mesmo patológicas – típicas de determinada idade; (2) um estágio edípico, referindo-se ao conjunto normal de experiências dessa idade; e, finalmente, (3) o complexo de Édipo, que via como a distorção patológica do estágio normal. Ele postulava essas duas últimas categorias independentemente de considerações quanto à frequência com que ocorram (Kohut, 1981/1983).

Kohut pensava que a diferenciação mais importante é entre o “estágio” edipiano e o “complexo” edipiano.

Posso condensar o problema que estamos encarando traduzindo-o na seguinte pergunta: se existe um estágio normal de desenvolvimento do self que é alegremente experienciado e que, em harmonia com a tradição psicanalítica, pode ser chamado de estágio edipiano, qual é a essência desse estágio? E se as experiências desse estágio normal podem tornar-se distorcidas e, nessa forma distorcida, podem fornecer a sementeira para os desejos pulsionais, conflitos, sentimentos de culpa do complexo de Édipo, o núcleo das neuroses edipianas, qual é a essência desse “complexo” em contraste com a essência do “estágio”? Além do mais, o que exatamente causa a transformação deletéria de um estágio normal num complexo patológico e potencialmente patogênico? (Id., ibid., p. 388. A tradução é nossa).

Os analistas tradicionalmente sustentam, com Freud, que o estágio edípico normal é idêntico ao complexo de Édipo ou, dito de outro modo, que o complexo de Édipo constitui o conteúdo de experiência de um estágio normal do desenvolvimento. Deixando de lado os problemas que surgem quando se tenta definir “normalidade”, oposta à frequência ou mesmo à ubiqüidade de uma ocorrência, Kohut lembra que “a cárie dentária é ‘ubíqua’, mas não é ‘normal’” (Kohut, 1981/1983, op. cit., p. 388. A tradução é nossa). E, em primeiro lugar, chama atenção para o fato de que a psicologia do self não considera pulsões ou conflitos como patológicos, nem que experiências de vergonha ou culpa, mesmo intensas, sejam patológicas ou patogênicas por si próprias. O self saudável, diz ele, pode ser acometido por conflitos e, portanto, experienciar intensa culpa e ansiedade. Mas essas experiências não são equivalentes às pulsões, aos conflitos, às culpas e ansiedades do complexo de Édipo que, em determinadas circunstâncias, podem na vida adulta levar aos sintomas das chamadas neuroses edipianas. Ou seja, não produzem o tipo de conflito que constitui o núcleo das neuroses transferenciais clássicas da vida adulta, conforme a formulação inicial de Freud.

Para a psicologia do self o fato de que tenhamos investigado e elaborado os desejos pulsionais, conflitos, culpas, temores e ansiedades do complexo de Édipo não significa que tenhamos atingido o leito de rocha biológico. Por baixo de sua análise sempre emerge uma transferência selfobjeto mais profundamente sepultada, sob o complexo de Édipo. Replicando as experiências patogênicas da infância, a transferência selfobjeto patogênica revela que as pulsões instintivas objetais (e os conflitos, culpas e ansiedades correspondentes) são apenas laços patogênicos intermediários que levam secundariamente às manifestações das neuroses edípicas, caso as circunstâncias da vida adulta promovam tal desenvolvimento.

A descoberta clínica da regularidade com que as experiências self-selfobjetais patogênicas da infância contribuem para um complexo de Édipo sugere um retorno à teoria da sedução original de Freud, embora Kohut certamente não defenda um retorno ao conteúdo específico da formulação freudiana inicial. As falhas dos selfobjetos edipianos que resultam no complexo de Édipo transformam a excitação de afeição e de atitude afirmativa – atributos essenciais do self edipiano alegre e orgulhoso – em pulsões patológicas e patogênicas que são produtos de desintegração (Kohut, 1981/1983, op. cit.). Poderíamos dizer, com Ferenczi (1933/1989), que são resultado da “confusão de línguas” entre adultos e crianças.

Conclusão

A psicologia do self não é uma forma nova ou diferente de psicoterapia, é antes uma extensão e correção da prática psicanalítica tradicional. É um equívoco comparar a obra de Freud com a de Kohut como se representassem posições fundamentalmente diferentes. Kohut foi capaz de levar as descobertas clínicas de Freud até sua conclusão lógica e, por meio da ênfase que colocou na primazia da introspecção e da empatia para a psicanálise, fez avançar a obra de Freud de um modo que não tinha sido possível anteriormente (Basch, 1989, op. cit.).

Assim, podemos ver a psicologia do self como sucessora evolutiva da psicologia do ego, tal como esta sucedeu à psicologia do id. E Kohut pode “ser reconhecido e homenageado por aquilo que ele certamente sempre pensou que era: alguém que contribuiu para o desenvolvimento da psicanálise freudiana” (Basch, 1989, op. cit., p. 20. A tradução é nossa).

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARAUNA, R. O. “O método empático-introspectivo”. Trabalho apresentado ao I. E. P. da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, para obter a qualificação como analista-didata e supervisor do Instituto, 1995.

BASCH, M. F. (1989) “Uma comparação entre Freud e Kohut: apostasia ou sinergia?” In: DETRICK, D. & DETRICK, S. (Eds.) Self psychology: comparisons and contrasts. Hillsdale, NJ: The Analytic Press, 1989, p. 3-22.

COCKS, G. (ed.) The curve of life. Correspondence of Heinz Kohut, 1923-1981. Chicago: Chicago University Press, 1994.

FERENCZI, S (1933) “Confusão de línguas entre os adultos e as crianças”. IN: ________ Escritos psicanalíticos – 1909-1933. Rio de Janeiro: Taurus-Timbre, 1989.

FREUD, S. Standard Edition. Londres: Hogarth Press, 1966.

(1895a) “Project for a scientific psychology”, vol I, p. 75-87.

(1895b) “On the grounds for detaching a particular syndrome from neurasthenia under the description ’anxiety neurosis’”, vol III, p. 87-117.

(1915) “Instincts and their vicissitudes”, v. XIV, p. 117-140.Autor: